7 Jun 2018

I

Agora olho para a máquina criada. Posso ver as suas imperfeições, mas estou tão envolvido com o seu funcionamento que elas me cativam, são elas a melhor coisa que podemos oferecer. Vicissitudes, consequências das escolhas das quais não podemos desviar nosso olhar. Uma máquina em funcionamento é sempre uma máquina sendo construída. Pensei em algum momento que tudo poderia ser diferentes, que dessa vez as minhas expectativas não asfixiariam ninguém, que conseguiria organizar o tempo a ponto de não me sentir tolhido, me cobraria menos, que essa máquina seria uma utopia colaborativa e simplesmente funcionaria. Mas essa máquina é feita de muito desejo, de muita tentativa, de muita esperança e de muita falha. Ela é feita pelo acaso e pelo jogo do instante. É uma máquina para ressuscitar mortos, para nos fazer marchar. Eu lutei para não estar nessa máquina e quando percebi estava em seu interior, em seu núcleo. O Cabaret não é uma escolha, mas um destino que eu tento fugir. Essa máquina selv...

27 Apr 2018

26 de abril, o Coletivo Casa Selvática volta às ruas com essa tentativa intensa e belíssima de existir hoje, com mais uma ramificação do cabaret para o mundo, dessa vez localizada em Curitiba. Dessa vez CABARET MACCHINA. Como se o sentido da busca fosse necessariamente um giro*, assim é que me sinto através dessa experiência. Ainda será possível contar quantos somos? Em quais cantos do mundo há uma selváticx? Faz sentido contar quem somos? Quais desenhos formam as nuvens? Que trazes debaixo da saia, irmã? 

Não é fácil...Precisa de vento. Sufoquem de angústia diante da ideia de que nada conseguirá nos deter. Ingredientes: romper, espírito, girar, intensidade, macchinanãomacchina, ordemcalcinhaprogresso, amorhumor
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Fomos ao Sucatiba. Fazendinha. Portão. Praça Generoso Marques. Praça Afonso Botelho. Praça Rui Barbosa. Rua da Cidadania Matriz. Rua Nunes Machado. O todo e as partes. Organismo. A lágrima é um líquido muito viscoso para caber aqui? É? 

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Pão para os vivos. Transformar um g...

26 Apr 2018

Esse é meu primeiro texto sobre a peça depois da estreia. Não vou fazer textinho intelectualoide e nem conceitual, tá? E, cara, a estreia foi retumbante. Era muita gente na praça. Uma multidão que estava ali porque tinha interesse naquilo que nós tínhamos a dizer e mostrar. 700, 800, 900, mil pessoas??? Deu muito medo. Teve muita tensão. Teve brigas, bate-bocas, desentendimentos e lágrimas mas, olha, teve muita alegria também. Teve abraços, teve risadas e teve o sono dos justos, aquele que a gente só dorme bem depois que o trabalho é realizado com sucesso. E o que é o sucesso para um grupo tão acostumado a versar sobre o fracasso? O que é o fracasso?? Ontem, no ensaio geral, já no MuMa, no Portão, a plateia era escassa. Alguns gatos pingados que passavam, e fazer a peça foi maravilhoso mesmo assim. Eu acho que se trata de gostar daquilo que faz. Quem gosta do que faz o faz bem, o faz melhor. Sucesso e fracasso, afinal, são conceitos relativos. Principalmente no atordoante Brasil de 201...

30 Mar 2018

1.

Assisto “O ETERNO VOO DE DR. FAUSTROLL NA CLAREZA OBSCURA DO AR - Uma Incrível Navegação no Bingo da Sociedade Secreta da Patafísica” do Corpos Nômades e saio da sala com a sensação de ter vivido o que um dia me levou até a arte. Foi a patafísica, o situacionismo, o corpo em exercício e o jogo tudo isso misturado em um único elemento. Nunca gostei daquilo que foi essencialmente técnico, daquilo que não traz a arte pulsante, daquilo que não abre espaço para o acaso e a incompletude. Quero o tiro no escuro, o risco. Arte e magia. A crise enquanto choro e devoro um pedaço de cupim é patafísica. Como é patafísico meu ofício de diretora.

  • A diretora ditadora que não veio deixou o que em seu lugar?

Os restos de um profeta do caos. Faríamos uma ópera, cantaríamos os triunfos de um herói mas nos sobrou a anti-ópera e o cabaré. Jarry é um caminho ambíguo que me leva até ópera, quando bufa, e ao cabaré.

2.

A dama e o vagabundo

La Opera, do italiano: A Obra

obra de arte total

desejo híbrido mas...

12 Mar 2018

Sonho: uma Medeia que me ensina a correr, a fugir de uma pedrada no centro da cidade, de um amor que mata – lento. Quem me salvou, ontem hoje amanhã: MULHER. Eu não parto, eu não partiria, eu não posso parir, mas eu parto: eu parto.  A peça é, antes, sobre o novo lugar de tudo – o que importa – no mundo. Talvez não. A peça é, antes, sobre a desistência do gesto ingênuo. Os teus esconderijos, homem, se perderam no insuportável. 

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Eu não vou mais sentir vergonha de existir. Eu vou ter minha voz: indígena, espanhola, branca. Eu vou ter minha língua de serpente — minha voz de mulher, minha voz sexual, minha voz de poeta. Eu vou superar a tradição de silêncio.

Gloria Anzaldua, Como domar uma língua selvagem

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Sonho: a briga consiste em entender se as minhas lágrimas estão de acordo com os modos polidos de dizer que estou equivocado ou se quero mesmo é vencer no grito – se os buracos em que caio são abismos solitários [tente dizer seu nome e ele já é coletivo]. Depois de um tempo fica combi...

21 Feb 2018

Eu queria ser o feixe de luz solar que atravessa a sala do teu prédio e ilumina teu peito-cidade: ferida aberta. Já me tomaram os braços e agora escrevo como quem diz: não morrerei. Fico com meus olhos. Coloco o celular para despertar - esperança.

A rebelião começa com um passeio. A correnteza roubou de mim minhas sandálias aladas. Na ponte de madeira, com os corrimões desbotados em bordô, que mostrara a única paisagem possível: uma montanha amarela. Hamlet, engula meus pés. Quem conta a história agora somos nós. 

Primeira Lua Minguante de 2018 na Terra Distante. Um cavalo-macchina lombo adornado de espinhas metálicas um peixe em chamas me salva todos os dias da dor de estar no mundo. Como anotar um sonho? Onde está Dulce Veiga? E se a memória fosse um fardo? 

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Vazio Eco

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Pegar em armas. Seremos eu e o meu sangue. O meu sangue manchará a calçada do amanhã após a explosão do meu crânio de imbecil. A cidade é uma ferida aberta. É preciso fingir que não há um corpo estirado ao chão...

18 Feb 2018

A vez é da mulher. O homem uma paisagem abandonada, terra devastada, arrasada. A terra só é plana para os imbecis. Um dia a poesia ganhará status de constituição! Um dia todas as cadelas do mundo, todas as putas do mundo se unirão, se darão mãos, vão ladrar nas portas dos palácios dos governos e dos infernos, descabeladas e bem nutridas, amorosas e armadas. No meio das coxas a morte tem uma esperança. A árvore pode até crescer por cima de mim se eu tiver vencido. O homem que agarre o homem, que amor de homem é uma cantilena. Antes derramar o sangue das mulheres da Cólquida por fidelidade ao que é finito do que perpetuar uma espécie desvairada e tola. Eu não. Não para cima de mim, já disse: se essa árvore quiser crescer por cima de mim, terá que batalhar. Meu amável cadáver me restituirá daquilo de que fui deposta. Antes quero dançar sobre a mesa dos convivas e chutar a comida dos comensais. Queres comer meu coração? Venda o jantar para comprar o almoço. Queres ter comigo? Meu ventre tu...

15 Feb 2018

Um bando de atores se camufla na praça. São Pisteiros disfarçados de Vedetes disfarçadas de Pisteiros. Jasão, eles vieram cobrar sua dívida, Will, são eles que varrem as ruínas da Europa deixadas aqui, é a lama da Vale em seus calcanhares.

14 Feb 2018

O parque fica atrás do telhado plano de café, atrás dele há telhados pontudos. São as ruas dos diretores, inspetores, dos prefeitos, funcionários do serviço secreto e oficiais. As silenciosas ruas do poder, onde o vento fica com medo quando bate. E, quando sopra, não rodopia. E, quando fica tormentoso, prefere quebrar as próprias costelas a um galho. As poucas folhas secas arranham os caminhos, cobrem as pegadas logo após os passos. As ruas não notam o caminhante que não mora lá, que não é de lá. 

As silenciosas ruas do poder estão em meio a uma névoa que espraia os galhos no parque e consente o ouvir, que oferece o caminho ressoante ao lado do rio, que faz com que os passos em ambas as margens, ainda sobre a grama cortada, sejam verticais, com o joelho colado na garganta. Os caminhantes não querem chamar a atenção ali, eles andam íngremes e devagar. Mesmo assim, correm, estão atiçados na garganta.

Herta Müller em "A Raposa Já Era Caçador"

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