Selvática Ações Artísticas

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Pelas Ruas!

29 Jan 2018

' Estou dentro do espelho mudo
-um peixe azul comprimido
pelo gelo, seu salto perdido
na esquife de eterno vidro-
o alarme que sibila agudo
nos vagos ventres da palavra
não estala a superfície
do espelho: e mal aflora
os olhos da única imagem
que vive...' (Pasolini)

 

(...) a arte de protesto não é uma questão de temas, e sim de um “fluxo de forças”, para usar uma expressão de Flávio de Carvalho. E esse fluxo de forças precisa ser testado em um campo instável que não pode ser somente da arte, mas um espaço público onde se redefinem todos os papéis e todos os domínios (Gonzalo Aguilar – Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase)

 

Estar em bando. Diluir a trupe e tornar a encontrar. O que faz essa pequena multidão parada em uma encruzilhada? Porque andam em fila esses adultos? Certas vezes parecendo uma ceita religiosa e outras o início de uma manifestação política vamos às ruas construindo uma máquina feita dos nossos desejos e dejetos, restos de ideais e utopias. Nossos heróis morreram de overdose e nossos inimigos ainda estão no poder. Falamos da máquina a partir do nosso corpo coletivo em formação, in progress, grotesco e desconhecido. Máquinas desejantes desejadas. Reconhecendo o nosso pequeno fascismo diário poderemos propor transformações que partem das nossas entranhas maquínicas.

 

Foucault na abertura do Anti Édipo.

 

- Liberem a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante.

 

- Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.

 

- Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é

sedentário, mas nômade.

 

- Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.

 

- Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.

 

- Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.

  • Não se apaixonem pelo poder.

 

O fracasso, a arte em processo, o exercício da adaptação/subversão do que nos foi ensinado, imperfeição, a tentativa e a auto ironia são as nossas armas. Fé cênica e pé na tábua. Assim construímos o nosso exército de adaptadores, charlatães. “Construção pressupõe destruição” disse Walter Benjamin. Assim é construída a história: nesse movimento contínuo de construção e destruição. O caráter destrutivo é a consciência do homem histórico. Para Benjamin o fascismo não é suficientemente destrutivo, destrói o outro e não a si mesmo. Acredita em si como essa arquitetura perfeita. Assim uma ópera, um cabaré, uma máquina que incorpore as falhas em seus discursos responderá a um regime semiótico onde existe apenas um significado para cada signo sendo barroca, híbrida, nômade, sombria, carnavalesca, cômica e trágica ao mesmo tempo, bufa, burlesca, de terror, simultânea, de terror, genética, artificial, ficção científica, alegórica, fracassada, marginal, fantasiosamente glamourosa, mestiça, impura, contagiosa, disforme, anômala, gangrenada, nosferática, ciborgue, desbocada, teatral, grandiosa e microscópica.

 

Eles estão armados

Nós também nos armaremos

Eles estão fardados

Nós logo estaremos

 

Em marcha

Máquinas desejantes

Em marcha

Cabaré delinquente

 

Burlaremos com o poder

dançarinas atrizes desaparecidas

Charlatões, ridículos, grotescas e suicidas

vagabundos podem te morder

 

Estaremos nas ruas em tentativa espetacular. Apresentar nossa heroína da noite, heroína na veia. Um cabaré de artistas movidos pelas ruas máquinas de uma cidade. Dessa vez não nos trancaremos nos porões. Sairemos pelos bueiros. Estamos nas ruas com nossos fantasmas e nossas tentativas. A música se dá em pequenos sons, sons realizados na cenas, discursos que nada discursam, textos projetados, ditos, modificados por computadores. Ações que se tornam músicas. Uma ópera anti ópera total. “Polivocidade extrema em que elementos sonoros, visuais, gestuais não necessariamente confluem, produzindo algo como um sistema de intensidades particular que explode polifonicamente a narratividade que parecia acolhê-los, os estrangulamentos que parecia encerra-los” (Pelbart sobre a obra de Kafka).

 

 

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