Selvática Ações Artísticas

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Para onde tudo vai

26 Apr 2018

 

Esse é meu primeiro texto sobre a peça depois da estreia. Não vou fazer textinho intelectualoide e nem conceitual, tá? E, cara, a estreia foi retumbante. Era muita gente na praça. Uma multidão que estava ali porque tinha interesse naquilo que nós tínhamos a dizer e mostrar. 700, 800, 900, mil pessoas??? Deu muito medo. Teve muita tensão. Teve brigas, bate-bocas, desentendimentos e lágrimas mas, olha, teve muita alegria também. Teve abraços, teve risadas e teve o sono dos justos, aquele que a gente só dorme bem depois que o trabalho é realizado com sucesso. E o que é o sucesso para um grupo tão acostumado a versar sobre o fracasso? O que é o fracasso?? Ontem, no ensaio geral, já no MuMa, no Portão, a plateia era escassa. Alguns gatos pingados que passavam, e fazer a peça foi maravilhoso mesmo assim. Eu acho que se trata de gostar daquilo que faz. Quem gosta do que faz o faz bem, o faz melhor. Sucesso e fracasso, afinal, são conceitos relativos. Principalmente no atordoante Brasil de 2018, em que cada merda disparada na água é um flash. Se pensarmos que o medidor do sucesso é a alegria pessoal envolvida no trabalho, isso nós temos de sobra. Dá para ver na cara de cada um. E então nós temos sucesso e então, sim, sucesso, aí vou eu! Dá orgulho de estar na máquina de cabaré, dá orgulho de fazer teatro com essas pessoas, dá muito orgulho. Desde as primeiras conversas que eu tive com o Rick, há alguns anos atrás: “mas por que o Heiner Müller, Léo?” Porque faz sentido. Pode não parecer agora, pode não ser muito clara a conexão mas para mim tem, sim. O Chico um dia, no final de 2017, me aparece com a biografia do cara, “Guerra sem batalha – Uma vida entre duas ditaduras”. Eu estava a caminho de Ponta Grossa para fazer a curadoria do FENATA. Levei o livro emprestado, que dormiu ao meu lado na cama do hotel todas as noites. O Chico também dizia que faz sentido, sim. Tivemos alguns encontros na minha casa, entre o café e o almoço, para ordenar as ideias e agrupar os textos. Foi um trabalho minucioso. Pedregoso também. Não conseguimos nos desapegar de alguns dos escritos do Müller, eu não consegui. Mas o Chico escreveu coisas lindas e o Rick com as ideias de encenação. A batata crua que todos comemos no primeiro dia do processo, 9 de janeiro, data do nascimento de Heiner Müller em 1929, na Alemanha. A ascensão do conservadorismo no Brasil de hoje, para mim a ideia pastosa de se conservar algo. Vejam bem: eu não sou do tipo de pessoa que quer conservar algo, eu não sou conserva, eu não sou compota, eu não quero conservar nada, principalmente se forem aquelas ideias retrógradas e preconceituosas que pioram o mundo e o estancam. Eu simplesmente não dou para isso e isso é o que as pessoas menos podem esperar de mim. Talvez quando estiver bem velhinha e zuada, mas eu duvido. O Maikon K diz que eu sou a Dercy Gonçalves do futuro e eu acredito nele. O processo cheio de golpes, três bicicletas dos atores roubadas, a Nina que entortou a perna no ensaio, a Amira que se machucou um dia antes da estreia, a pressão, a camiseta do Matheus que desapareceu na escuridão da Matriz no ensaio, eu acabei tendo uma briga ridícula e desnecessária com o Stéfano no restaurante do Mabu durante o jantar, a comida desceu rasgando, o Lázaro Ramos, ao lado, deve ter achado que esse pessoalzinho do teatro de Curitiba é tudo maluco, ou talvez ele só tenha achado que a gente é passional mesmo, e a gente é, a peça é grande, estar na mostra do Festival de Curitiba traz lá suas preocupações. É o maior festival de artes cênicas do país, e também é aquele com o qual sempre estivemos acostumados, muitos anos de Fringe, muitos anos pagando para trabalhar, muitos anos fazendo peças em condições pavorosas. Dessa vez era a hora de mostrarmos para o mundo que mesmo sendo um bando de porras loucas, nós somos porras loucas profissionais e podemos fazer acontecer seriamente. E assim foi, e assim é, e assim será. A Casa Selvática faz seis anos agora em 2018 e eu não consigo nem contar quantas foram as vezes em que a gente se juntou naquela salinha do telefone para ter ideias. Ideias para pagar as contas, ideias para projetos, ideias para peças, ideias para dança, ideias para filmes, ideias para comida, ideias para abrir a casa e receber as pessoas. A gente também se juntou para chorar muitas tristezas, a gente se juntou para comemorar muitas alegrias, viagens, projetos aprovados, a cozinha nova que a gente não usou para fazer uma comidinha só para a gente e os mais chegados até agora porque o CABARET MACCHINA, desde que surgiu, atropelou tudo por onde passou. A coisa da pós-ópera anti-edipiana era para ser uma brincadeira irônica, um deboche, um pastiche, mas muita gente acabou levando a sério. Você percebe que o mundo está estranho quando as pessoas estão levando tudo a sério. Eu estou um pouco sentimental agora, enquanto escrevo isso, mas eu penso na quantidade de nãos que a gente recebe a vida inteira, sabe? Não pode fazer isso, não pode fazer aquilo, não pode aquilo outro também. Sabe aquilo lá? Então: não pode. Mas o que é que pode, afinal de contas?? O que pode um corpo? O que pode um grupo?? O que pode uma multidão??? Nós já não somos mais vinte e poucos. Nós somos mais de mil, porque se nós arrastamos essa quantidade de gente, isso quer dizer que nós não estamos sozinhos. Quer dizer que os nossos pares estão por aí, interessados em nos ouvir, ver e em agir conosco também. A Pati com a voz rouca na estreia, de tanto que a gente grita nessa peça, eu lembrei de comprar própolis com mel, que depois esvaziei na goela nos dois dias. O Rick fica rouco também, mas ele canta gritando o “Terrorismo com Torresmo” dele e não toma chá de limão com gengibrão. O Leo Bardo gritando “bicho seco” no meio da cena das bruxas no ensaio de ontem. A Saravy: “Leonarda, posso colocar essa árvore não vai crescer por cima de mim no começo? Terminar com nas seringas usadas o sangue dos teus inimigos não tem embocadura um texto desse”. Pode, Pati, você pode tudo, no final a gente pode tudo. A Simone que a gente tanto fez para que fosse o nosso Hamlet, eu achava muito importante em termos de signo uma mulher negra interpretando Hamlet. Para mim fazia muito sentido. A Semy gosta quando eu digo que a peça é um monte de personagens canônicas icônicas que se encontram nos escombros de um teatro, como aquele lá de Londrina que pegou fogo, acho que é Ouro Verde o nome, onde a Fernanda Magalhães fez fotos nua. Um Hamlet aqui, uma Medeia ali, acolá um Jasão, ali uma Ofélia que se afoga, as feiticeiras, os coveiros. No final a vida é cheia de bruxaria e morte mesmo. O Victor e eu discutindo sobre os melhores cosméticos da Casa Costa em frente à Rui Barbosa, a caveira de veludo que eu comprei na loja de umbanda com a Cali e que a produção não me pagou até agora, a Bruna que deve me detestar só porque eu fui uó com ela quando ela não quis carregar os nossos figurinos embora. Os ensaios de roda com o Gabriel, uma das partes que eu mais gosto da porra toda. Nos ensaios, com roupas de ensaios, as pessoas já percebem que a trupe veio para gerar sentido e imagem. Gosto assim. A Nina, que faz a América Decaída na peça, eu só queria dizer que eu sou das poucas pessoas que torcem pela América ali. A Jo, essa parceira maravilhosa que eu consegui enfiar no teatro, amo demais. A Thalita, essa nova selvática maravilhosa, que fez do material gráfico da peça uma verdadeira obra de arte em si que eu fico enchendo o saco da produção para distribuir. A Amabilis com o carrinho dela: melhor personagem! O Cesar que tá fazendo falta mas que tá arrasando na peça do Gabriel Villela: Betelgeuse era sangue? Lembra??? A Cacá também deve achar que a gente é tudo louco. Talvez a gente seja mesmo. Mas a nossa loucura é justamente o que nos move. A história que a gente conta é a história das mães que um dia amaram e depois foram largadas para trás. É a história da população negra desse país que nunca tem destaque porque os brancos estão sempre enchendo o saco em volta, querendo protagonizar alguma merda. É a história das bichas que apanham nas ruas só porque estão vestindo calça justa. É a história das transexuais e travestis assassinadas nas ruas de todo o país a torto e a direito. É a história desse povo que um dia se junta e decide marchar, como fosse exército, sobre tudo aquilo que considera errado. É a história de quem não aguenta mais ser violentado e resolve dar o troco de algum jeito, seja com truculência também, porque o amor é uma linguagem gasta. A Lispector dizia que a truculência é amor também. E eu amo a minha trupe. Cada um de vocês. O meu grupo. O meu coletivo. O meu bando. A minha gangue. A minha Cólquida, o meu marco central, o lugar de onde eu meço todas as distâncias. Vocês me levantam e fazem a minha vida melhor. Todo dia eu morro em cena para levantar no dia seguinte em outra cena, em outra cidade, em outra praça, em outra peça, em outra vida. Eu estou viva. E vou dar um jeito de levar essa peça pra tudo quanto é lugar. Se preparem.

 

 

*Fotografia Mariama Lopes

 

        

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