Selvática Ações Artísticas

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O Regresso- notas anacrônicas de Hugo Bola

7 Jun 2018

I

Agora olho para a máquina criada. Posso ver as suas imperfeições, mas estou tão envolvido com o seu funcionamento que elas me cativam, são elas a melhor coisa que podemos oferecer. Vicissitudes, consequências das escolhas das quais não podemos desviar nosso olhar. Uma máquina em funcionamento é sempre uma máquina sendo construída. Pensei em algum momento que tudo poderia ser diferentes, que dessa vez as minhas expectativas não asfixiariam ninguém, que conseguiria organizar o tempo a ponto de não me sentir tolhido, me cobraria menos, que essa máquina seria uma utopia colaborativa e simplesmente funcionaria. Mas essa máquina é feita de muito desejo, de muita tentativa, de muita esperança e de muita falha. Ela é feita pelo acaso e pelo jogo do instante. É uma máquina para ressuscitar mortos, para nos fazer marchar. Eu lutei para não estar nessa máquina e quando percebi estava em seu interior, em seu núcleo. O Cabaret não é uma escolha, mas um destino que eu tento fugir. Essa máquina selvática que trago traçada na palma da mão é o que o mundo me deu. É uma família e uma esperança. Tantas contradições, tantas formas de olhar para isso tudo. Nossa máquina tem peças que se organizam e reorganizam combinando distintas engrenagens. Nada disso é sobre ser a pior ou a melhor máquina-espetáculo-peça-cabaret. É sobre a máquina que somos e a que damos conta de ser. Máquina confusa, dissonante, polifônica, apaixonada, intransigente e passional. Ser o que e como somos com nossas máquinas frustrações e esperanças perdidas-dadás. Máquina organismo embarcação carregada de ideologias ultrapassadas. Máquina mística que combina e realinha a arquitetura, impulsos e situações. Máquina feita de restos de referências comidas e regurgitadas por dentes engrenagens e motores de uma máquina antropófaga.

 

II- Dois Sonhos com Guatarri

 

GUATARRI (com a cabeça dentro do fogão à gaz):

Um efeito que só é compreensível a partir dessa molecularidade que são meio que varridas as personagens e as situações em uma polivocidade extrema em que elementos sonoros, visuais, gestuais não necessariamente confluem, produzindo algo como um sistema de intensidades particular que explode polifonicamente a narratividade que parecia acolhê-los e os estrangulamentos que pareciam encerrados.

 

GUATARRI (rebolando com bananas na cabeça):

Regimes totalitários agem junto a uma estética semiótica em que na base da patologia está o encobrimento: algo nos está escondido, subtraído e então desaparece: estamos impedidos de algo. Um regime semiótico pode ser caracterizado quando um (e somente um) significado pode ser atribuído a um significante. Porém já não estamos lidando com os efeitos da repressão ou do poder disciplinar. As desordens comunicacionais e o estado mental precário não são patologias da repressão, da eliminação, da ocultação, da restrição ou da exploração direta. São efeitos da inflação semiótica, do excesso de sentidos e informação, de possibilidades e visibilidades. Sobrecarga de estímulos. Aprendemos (primeira geração video eletrônica) mais palavras com as máquinas que com as mães.

 

III:

Nesse Processo desenvolvemos 6 máquinas coletivas. Esboços. Protótipos do que poderia ser e conter a nossa máquina. Utilizando palavras de Heiner Müller e nossas fizemos um set cinematográfico, derivas, exercícios de auto conhecimento, criamos cenas e simplismente estivemos nas cidades, ocupando e sendo ocupados. Invadindo e sendo invadidos. Comendo e sendo comidos por olhares e mosquitos. Como falar ferida? Como falar de dentro de um cabaré? Como duvidar da minha própria palavra? O que é ser coletivo?

 

IV- Vagabundagem

 

Em uma encruzilhada de uma cidade imaginária pode-se ouvir a voz de João do Rio

“A Rua era para eles um alinhado de fachadas

A Rua é muito mais que isso

A Rua é um fator de vida das cidades, a rua tem alma. Para compreender a psicologia das ruas não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol ou o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso flanar”

ao que Hélio Oiticica poderá responder

“o pé calçado pronto para o delirium ambulatorium renovado a cada dia”

 

V.

O Cabaré se instala em qualquer ponto da cidade. Erva Daninha que nasce em cada fresta. A pós ópera é Zona Autônoma Temporária. Permanece até ser enxotada. Falamos do coração da cidade e tocamos o discreto charme do precariado. Depois das duas apresentações realizadas a convite do Festival de Curitiba começamos nossa viagem para dentro da cidade. Sem glamour, sem pompa, apenas artistas de cabaré com o desejo de estar em praça pública travando um diálogo direto com aqueles que habitam essa cidade. Sob a luz do dia. Nosso cabaré circo de horrores é feito de criaturas desviantes, máquinas desejantes produzindo vida arte no limite da trituração.

 

VI.

Mais uma vez esses artistas são impedidos de ocupar ruas e praças livremente, de dividir espaços com crianças, a própria instituição que aprovou esse projeto com essas características nos diz: o cabaré deve ser noturno, voltem para suas tocas e bueiros. Esse foi um processo construído por esse coletivo de artistas, se revezando em diferentes funções com o cuidado de não infringir nenhuma regra da utilização do espaço público, mas sem amenizar o discurso e a potência desses corpos juntxs no espaço público. Não falamos sobre uma boa obra de arte, mais um espetáculo que seja proposta de uma experiência a ser vivida coletivamente, um evento pãnico. Cuidado, in progress. Já estamos nas ruas desde o dia 9 de Janeiro (dia que nasceu Heiner Müller). Nesse dia chovia e ficamos confinados na garagem da Casa Selvática- com um pé na rua. Ensaiamos vivendo ruas da cidadania, praças, vielas. Realizamos banquetes, ensaios e treinamos à luz do dia, em lugares de passagem onde todos poderiam ver. Figurinos, luzes e todas as cenas foram testadas primeiramente no espaço público. Também nesses meses treinamos a nossa generosidade e acreditem vocês: tivemos pouquíssimos problemas a ponto de nós mesmos nos surpreendermos com isso. Esse já é um processo que não se esconde, já está na cidade, sem autorização.

 

VII

 

Assim como é sabido que toda arte para ser “popular” deve necessariamente ser transgressora, é sabido que o cabaret é descendente direto da comédia dell'art, do artista de rua, da opera bufa. Seguiremos com nosso cabaret que é macchina pública, pós opera anti edipiana despertando essas contradições. Marcaremos encontros e convidaremos para encontros secretos na cidade, criaremos formas de ser cidade- essa velha cenografia de amestramento de corpos. Estaremos de dia e de noite travando essa luta com a arte desejante que acreditamos, seguiremos respondendo o mundo e nos alojando até sermos expulsos porque somos um exército de artistas.

 

Chegamos hoje ao fim dessa temporada nômade pelas veias de asfalto, terra e pedra. A lua é minguante e com ela nos despedimos do tempo vivido juntos, do que nos transformamos, avistamos na margem quem nós eramos. A Carta é o Regresso e com ela voltamos ao lugar de onde partimos. Praça Rui Barbosa, Mercado Central. Hoje, sem o glamour que avistamos juntos em nossa partida, voltamos com a máquina que somos e nada mais. Chove em Curitiba como no dia que começamos a construir.

 

Hugo Bola. 2018

 

 

 

ilustrações do Tarot Egípcio da editora Kier 

e da Marillyn Damazio veja mais sketches dela aqui https://www.facebook.com/marillyn.damazio/posts/2086825461329032

 

 

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