Selvática Ações Artísticas

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Eu falo de dentro da emergência

12 Mar 2018

 

 

 

 

Sonho: uma Medeia que me ensina a correr, a fugir de uma pedrada no centro da cidade, de um amor que mata – lento. Quem me salvou, ontem hoje amanhã: MULHER. Eu não parto, eu não partiria, eu não posso parir, mas eu parto: eu parto.  A peça é, antes, sobre o novo lugar de tudo – o que importa – no mundo. Talvez não. A peça é, antes, sobre a desistência do gesto ingênuo. Os teus esconderijos, homem, se perderam no insuportável. 

 

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Eu não vou mais sentir vergonha de existir. Eu vou ter minha voz: indígena, espanhola, branca. Eu vou ter minha língua de serpente — minha voz de mulher, minha voz sexual, minha voz de poeta. Eu vou superar a tradição de silêncio.

Gloria Anzaldua, Como domar uma língua selvagem

 

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Sonho: a briga consiste em entender se as minhas lágrimas estão de acordo com os modos polidos de dizer que estou equivocado ou se quero mesmo é vencer no grito – se os buracos em que caio são abismos solitários [tente dizer seu nome e ele já é coletivo]. Depois de um tempo fica combinado que não se fuma aqui, mas que pode-se dizer “me desculpe”. Não se tornar polícia: não fazer policiamento. Ser máquina que goza. O Cabaré, eu acho, precisa de uma fogueira que vai se intercalando em intensidade. Penso em um fogo que é alimentado com suor - tudo depende dos fluidos. Hay que suar: Brazil, Machine. O meu amor: é muito difícil amarrar o Atlântico. 

 

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Muitas vezes penso que preciso dizer as coisas que me parecem mais importantes, verbalizá-las, compartilhá-las, mesmo correndo o risco de que sejam rejeitadas ou mal-entendidas. Mais além do que qualquer outro efeito, o fato de dizê-las me faz bem. Eu estou aqui como poeta negra lésbica e sobre o significado de tudo isso repousa o fato de ainda estar viva, coisa que poderia não ter sido.  Que palavras ainda lhes faltam? O que necessitam dizer? Que tiranias vocês engolem cada dia e tentam torná-las suas, até asfixiar-se e morrer por elas, sempre em silêncio? Cada uma de nós está hoje aqui porque de um modo ou outro compartilhamos um compromisso com a linguagem e com o seu poder, também com a recuperação dela que foi utilizada contra nós. 

Audre Lorde , A transformação do silêncio em linguagem e ação

 

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Sonho: prefiro que você não diga à máquina que ela tem total autonomia, prefiro que você diga que atropele, sim, mas com lucidez, que não escove os dentes muitas vezes seguidas. É preciso ser máquina que sangra, ou não ser, ou não ser. Eu estou girando no marco 0. O que eu faço é atrasar o amor. Não permitir o pontapé. Eu faço de escudo a pele, e armas as mãos – o meu verso é terrorismo. A américa latina me deu de presente o vermelho, o sangue nos olhos, os ossos nas mãos. Diria que sou demônio, mas sigo dizendo Yo: yo mismo, mi amor: demonio. 

 

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Algumas mulheres vão sendo apagadas aos poucos, outras de uma só vez. Algumas reaparecem. Toda mulher que aparece luta contra as forças que desejam fazê-la desaparecer. Luta contra as forças que querem contar a história dela no lugar dela, ou omiti-la da história, da genealogia, dos direitos do homem, do estado de direito. A capacidade de contar sua própria história em palavras ou imagens já é uma vitória, já é uma revolta.

Rebecca Solnit, Os homens explicam tudo para mim

 

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Sonho: quem eu era: um bicho e depois ainda um planeta inteiro. Era capaz de expelir quantidades nunca antes vistas de catarro, saliva e sêmen. Tudo isso eu fiz sem dramaturgia anterior. Tudo isso me ocorreu sem que eu prestasse contas a nenhum país europeu – nas férias seguiremos para dentro do nosso próprio país (se férias houver). Eu não te pedi palavra, eu te pedi gesto. Que riscasse o espaço e então depois, sim, depois: você poderia me dizer que escreveu no espaço. Enxaqueca&SalaDeEnsaio.

 

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Como posso lhe dizer? Como posso convencê-la, irmão, irmã, de que a sua vida está em perigo. Que todo dia que você acorda, viva, relativamente feliz e saudável, você está praticando um ato de rebelião.

Manifesto Queer Nation

 

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Sonho: uma dor antiga, um Eurípedes morto, todo o sangue do mundo. Se todas as personagens voltassem: escritores, CUIDADO! Espécie de rio, sem espécie de nada. Eu fui muito bonito já, quando era grego: mas, se olho em retrospecto, nunca fui. Quando coloquei fogo em papéis e tingi de vermelho um figurino, quando era ator, quando era vaidoso: grego nunca fui.

 

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Y no se puede borrar la historia como se borró la República, como se borró a los que perdieron la guerra, como se borró a miles de maricas en la dictadura. Digo yo que alguien lo habrá hecho y que alguien será su heredero. Nosotros somos herederos de las maricas.

Paco Vidarte, Ética marica

 

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Sonho: fiz um mapa, desenhos em que distribuo onde está minha casa, onde está a sua e onde não há nenhum tipo de edifício que chamaríamos lar. A rua inteira se abre para que ecoe um grito: Vai embora, Jasão. Pega o teu caminho e vai. Todas as coisas que me parecem insuportáveis: respirar para expelir. Mastigar até a poeira. 

 

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De fato, se a mulher não existisse a não ser na ficção escrita por homens, era de se imaginar que ela fosse uma pessoa da maior importância; muito variada; heroica e cruel, esplêndida e sórdida; infinitamente bela e horrenda ao extrema; tão grandiosa como um homem, para alguns até mais grandiosa. Mas isso é a mulher na ficção. Na vida real, ela era trancada, espancada e jogada de um lado para outro.

Virginia Woolf, Um teto todo seu

 

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Sonho: em nenhuma das portas que se abre existe um herói. Ele não está nem nos filmes pornô. Desiste, my dear. Desiste. 

 

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Enquanto espaços materiais e simbólicos, objetivos e subjetivos, cognoscíveis e inimagináveis, os espaços sempre são um lugar de disputa que possui regimes e dispositivos de visibilidade, dizibilidade e ocupação. A menos que os lugares designados sejam reproduzidos, ocupar um espaço não é só estar nele, mas sim dotá-lo de uma nova potência simbólica e material

Gonzalo Aguilar e Mario Cámara,  A máquina performática

 

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Sonho: eu estou no alto de um prédio e grito lá de cima que me roubaram as histórias. A desordem do mundo, eis o assunto da arte. Impossível afirmar que sem desordem não haveria arte, e tampouco que poderia haver uma: não conhecemos mundo que não seja desordem. Tu me deves uma história, América. Eu sou herdeira da ferida cidade. 

 

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Espaços autoproclamados pós-coloniais, ou mesmo descoloniais e anticoloniais, não estão isentos de reengendrar a colonialidade como sistemática. O modo como esses espaços se articulam, quem os coordena, quem decide por eles, que relações de força, o que escrevem, como, com que suportes, para que circuito: todos esses modos de trafegar em meio às ruínas das relações coloniais (e produzir desde aí) mobilizam – quase como regra – uma dimensão contraditória inegociável, fruto de uma ferida racial histórica marcada tenazmente no corpo social, embora ainda muito mal elaborada do ponto de vista das afetividades e emoções coletivas

Jota Mombaça, Não existe o pós-colonial!

 

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Sonho: Hamlet bem quieto em um canto da sala. Depois de um tempo ergue a mão e pede onde fica a Dinamarca. Todos riem: foi um cinema, no centro da cidade, quando ninguém aqui era nascido. Ele não sabia. Algo nos está impedido. É preciso o dobro da energia para fazer a dramaturgia do ferro velho. O meu projeto da dramaturgia da reescritura: refazer toda a história, mas não sem ela: fazer a partir dela - escrever por cima, rasurando tudo. 

 

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Se organizar nunca quis dizer se filiar a uma mesma organização. Se organizar é agir segundo uma percepção comum, em qualquer nível que seja. Ora, o que faz falta à situação não é a “cólera das pessoas” ou a penúria, não é a boa vontade dos militantes nem a difusão da consciência crítica, nem mesmo a multiplicação do gesto anarquista. O que nos falta é uma percepção partilhada da situação. Sem essa ligatura, os gestos se apagam no nada e sem deixar vestígios, as vidas têm a textura dos sonhos, e os levante terminam nos livros escolares.

Comitê Invisível, Aos nossos amigos - crise e insurreição

 

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Sonho: o rei não volta... é de nossa responsabilidade... Dramaturgia não salva mundo nem ninguém. Dramaturgia cria chão: pisar com o pé que acompanha a dobra, a curva, a autocrítica. 

 

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Uma poesia de amor não é uma generalização de uma experiência amorosa específica: é uma proposição para uma nova maneira de amar

Vilém Flusser, O belo e o agradável

 

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Sonho: escrever encharcado ou não escrever – testo escritas dentro do mar. Meus papeis ficam intactos porque de alguma maneira a água é o ar: tudo molhado. E é possível respirar. Eu falo de dentro da emergência. Eu meço todas as distâncias daqui. 

 

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